segunda-feira, 11 de abril de 2011

Aprendi, gostei e não vivo sem.

Tem coisas que a gente aprende a fazer quando vive fora do país, e acho que todo mundo passa pelo mesmo. 
Aprende a ouvir, a observar, a falar, e até, a chorar. 
Todas as mulheres que conheci aqui, disseram que choraram  muito quando chegaram. Por causa da rispidez do povo português perante o imigrante brasileiro, por não entenderem o idioma que também chama português (mas é tão diferente), por dificuldades mil em se adaptarem.

Depois que a gente entende o que é dito e se adapta ao jeito português, aprendi que nem sempre eles estão sendo ríspidos, é apenas o jeito deles mais direto de falar.

Agora o que aqui aprendi a fazer, gostei e não vivo sem:

Contas: aqui cada centavo, ou cêntimo, como é em euro, vale ouro. Vou ao mercado, vejo o preço de tudo, confiro se o caixa cobra o que estava sendo divulgado na prateleira. Recebo trocos e faço as contas se me foi dado corretamente. Enfim, valorizo meu dinheiro super bem. Nunca ouvi alguém dizer, e acho que nunca ouvirei, alguém dizer como dizem no Brasil: posso ficar devendo dez centavos de troco? Aqui em Portugal não, não pode.


Comer bacalhau: uma vez por semana como um prato com bacalhau. Lá em São Paulo comia bacalhau só na Páscoa ou no Natal. Aqui é tão barato e tão fácil de encontrar, que toda semana como o danado do bacalhau. Qualquer restaurante oferece pratos com bacalhau e no mercado sempre tem fresquinho, ou melhor, salgadinho.

Azeite: Só uso azeite em minha cozinha. Raramente uso óleo para fritar um pastel de bacalhau. Lembro-me que quando eu era criança, na minha casa só havia azeite em latinha. A latinha tinha um micro furo, para usarmos o azeite, mais especificamente, o nano fio de azeite, sobre as saladas e as pizzas. Hoje o azeite já tem uma distribuição melhor e o custo dele não é tão alto como antigamente, mas continua sendo um artigo de luxo no Brasil. Por isso, uso e abuso do azeite aqui em Portugal. Só fico no aguardo de encontrar uma boa pizza, típica paulistana, para deitar um bom fio de azeite português.

Contemplar: como uma genuína cidadã de uma megalópole, vivia sempre na correria. Aqui em Lisboa, mesmo que esteja na correria, sempre há tempo e espaço para contemplar. Numa praça, num parque, num café, todo dia é possível parar um segundinho e admirar a arquitetura, o tempo, os pombos gordinhos. É comum ver as pessoas sentadas nos cafés e esplanadas, olhando para o nada, apenas contemplando.

Tem muitas outras coisas que faço aqui e que jamais sonhava fazer em São Paulo, como por exemplo, caminhar tranquilamente, levantar dinheiro no caixa eletrónico no meio da calçada, estender a roupa no varal na janela de casa, passear numa serra e 15 minutos depois estar com os pés na areia da praia. Viver fora é sempre muito enriquecedor.

Como disse Pablo Neruda: 
“Porque o mundo é grande demais para se nascer e morrer no mesmo lugar”.

* Sobre a rispidez portuguesa, vale lembrar que na década passada a imigração brasileira em Portugal foi em massa e isso causou alguns aspectos negativos quanto a imagem do povo brasileiro no país. Muitas pessoas mal educadas e que não conseguiam se adaptar ao país, denegriram a imagem de outros tantos brasileiros de bem. Muitas mulheres, por falta de opção, caíram em trabalhos alternativos, como a prostituição. Todos os portugueses com que tive contato foram muito gentis comigo; com exceção de alguns taxistas, motoristas de autocarro e antigos comerciantes, que, talvez por trauma de brasileiros menos polidos, trataram-me com menos gentileza. Neste blog não existe preconceito, discriminação ou generalização. O ser humano é único.

Um comentário:

  1. Gostei de ler.
    Principalmente o P.S.
    "Eu sou eu e as minhas circunstâncias" - tudo na vida carece de contextualização...
    Tive de fazer o mesmo como portuguesa a chegar ao Brasil: as pessoas pareciam-me invasivas, sempre com muitas perguntas indiscretas e a tocarem-me enquanto me falavam...Adaptei-me pois compreendi que era um jeito carinhoso de se relacionar, e as intenções não eram de coscuvilhar, mas de acolher.

    P.S. - tb sofri um pouco com as comparações com os antigos emigrantes de Portugal - a mulher de bigode e sr. manuel da padaria :O)
    Cada um é o que é por si mesmo!

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