quarta-feira, 29 de junho de 2011

Pá Semana. Uma cultura portuguesa?

Tenho muita dificuldade em acostumar-me com o tempo aqui em Lisboa. Para mim, tudo é muito moroso, lento, quase parado. 
Quando decidi vir para cá, meu primeiro contacto com Portugal foi através de seu consulado em São Paulo. Fiquei impressionada com o profissionalismo e a agilidade de atendimento. Todos são solícitos, bem informados e os documentos foram entregues antes do prazo informado. Meu visto ficou pronto em uma semana! Fiquei muito satisfeita, ou melhor, fiquei orgulhosa de um país com tamanha eficiência.

Chegando ao país, tive experiências que decepcionam qualquer um que esteja habituado com responsabilidades e respeito ao próximo. Eu que cresci num mundo cercado de filosofias como o Just in Time.

Tive imensa dificuldade em conseguir matricular-me na universidade que escolhi. Ninguém respondia meus e-mails, ninguém estava para atender minhas chamadas, nada ficava pronto na hora ou tinham as informações prontamente. Foi aí que tive meu primeiro contacto com a expressão “pá semana”.

O “pá semana” é o meu maior inimigo aqui em Lisboa. Ele deixa-me extremamente nervosa, irritada, decepcionada. Ele faz-me ter vontade de pegar nas pessoas e sacudi-las. E sabe por que? Porque quando alguém lhe diz “pá semana”, significa que algo será realizado para qualquer dia próximo, que com certeza não está compreendido entre os dias da presente semana e muito raramente estará nos dias compreendidos na semana seguinte. Entendeu? Nem eu, até hoje.
Traduzindo ao pé da  letra, “pá semana” significa: "um dia quem sabe a gente faz". Mas só se você nos cobrar novamente. É assim que é.



Voltando a universidade, depois de muito insistir, consegui matricular-me e estudei o quanto foi possível. 
O diploma? Foi solicitado e pago há 4 meses, mas não está pronto até hoje. Semana passada, disseram que ficaria pronto “pá semana”. Hoje, soube que a máquina avariou, o sistema ficou fora do ar e o responsável não está lá para conversar comigo.


É assim. E isso não acontece apenas com essa universidade. Tive um emprego que entregaria meu contrato “pá semana” e nunca chegou a fazê-lo (apesar dele estar pronto e eu já estar a trabalhar há mais de 3 meses). Aguardo o pagamento até hoje. Ressalto que o pagamento foi prometido, na segunda-feira passada, ser entregue “pá semana”, mas a funcionária estava com dor nas costas e agora fica “pá semana”.

Você entra em contacto com empresas, solicita orçamentos e os funcionários sempre prometem entregá-lo “pá semana”. Se você não cobrar, ninguém o entrega.
E muitos outros exemplos podem ser descritos aqui. 

Existem serviços eficientes, rápidos, profissionais também. Todas as vezes que fui às Finanças, fui bem atendida com organização, atenção e eficiência. Compro o bilhete de transporte nos postos na CP com muita rapidez. Os caixas dos supermercados são ultra velozes. Poderia até dizer, velozes e furiosos. Se você não colocar suas compras nos sacos na mesma velocidade, o próximo cliente passa por cima de ti.


O ritmo das pessoas é diferente e as culturas locais moldam esse ritmo. Com os cortes nos custos das empresas e a sobrecarga de trabalho em apenas pouquíssimos funcionários, atrasos e serviços ineficientes são uma constante ultimamente. Talvez seja compreensível. O que não é compreensível, para mim, é a permanência dessa cultura do “deixa pá depois”, “só fazer sob pressão”, “isso não precisa ser feito já”, “bora beber um cafezinho antes”, “só depois do meu cigarrinho”. Isso é inadmissível.

Se acordamos, levantamos e saímos das nossas casas para fazer algo, que seja de corpo inteiro, que seja AGORA. Estejamos prontos para fazer. E veremos tudo, naturalmente, acontecer.



Eu tenho esperança que a competência e o profissionalismo sejam disseminados neste país que tanto amo e que os portugueses que já estão habituados com isso consigam transmitir esse comportamento aos que persistem com essa cultura ultrapassada do "pá semana". É muito difícil acreditar nisso, quando até mesmo o governo, costuma entregar seu orçamento com atraso, mas eu ainda acredito. Porque eu amo Portugal e tenho fé nesta gente forte e inteligente. 
E também porque eu já vi isso na minha terra, gente lenta e sem vontade que hoje não tem espaço entre tanta gente esforçada, lutadora e eficiente. 


*A universidade em questão é a Universidade Lusófona de Lisboa, que já mencionei anteriormente em outro post. Ressalvo que o corpo docente que tive contacto foi excelente, mas a parte administrativa é uma lástima, o que me força a deixar aqui o meu NÃO RECOMENDO.

5 comentários:

  1. eu sou bem portuguesinha de Portugal, sem nunca ter saído de cá, e ainda não me consigo adaptar à velocidade, ou falta dela, que este país têm... :(

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  2. Não consigo parar de rir (de nervoso) e de me identificar contigo... Sim, é assim mesmo, "pá semana" ou "logo se vê" outra das frases de uso comum... já experimentaste, por precaução, ir pedir alguma informação para evitar q algo aconteça? Eles respondem: - Ah! Quando acontecer, logo se vê. Que é o mesmo que dizer, faça o favor de só nos procurar quando o pior já tiver acontecido

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  3. Bom dia Débora,
    respondendo à sua pergunta penso que esse 'traço' faz parte da cultura de ALGUNS portugueses. Infelizmente muitos deles atrás de um balcão de secretaria. Não tenho queixas da minha faculdade tanto de licenciatura como de mestrado - mas os diplomas esses sim demoram meses (pois têm de ter os selo e assinatura do reitor). De qualquer das formas um qualquer certificado, uma vez solicitado, entre 2 e 3 dias. Alguns no próprio dia. Às vezes as impressões sobre um povo e cultura estão condicionadas a experiências que serão sempre individuais - desculpe mas o Brasil não é propriamente internacionalmente conhecido pela eficiência. Mas reconheço que São Paulo poderá não representar o resto do país!
    Finalmente - trabalho com equipas complexas, constituídas por muitas pessoas e não tolero o 'logo se vê'. Faço 'marcação serrada': é necessário que alguém marque o ritmo. Quem não cumprir é quem está mal. Todos os dias trabalho para erradicar isto! E desconfio sobretudo dos que dizem abertamente 'sou super profissional'. Só acredito quando vejo na prática!!!!
    Bons posts!!!

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  4. ooopssss...SERRADA?! Sorry...cerrada - C!

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  5. Pois é !estou de acordo,alguns locais com tanta tecnologia ,ainda parece que andam a aprender a mexer em teclas e sistemas operativos ,também algum excesso de burocracia ,e por vezes dá-me vontade de saltar para la´da secretária e dizer ...é só isto que tem que fazer!mas pronto pode ser que com a nova geração Bit que se altere ...mas para melhor!

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