terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Percebi (minha crônica no Divirta-se do Estadão) - Ricardo Freire


Há quase trinta anos, na estação central de Zurique, eu estava comendo um pão com salsicha, de pé (era o que o meu orçamento de mochileiro permitia), quando me dei conta de que aqueles dois operários iugoslavos que comiam pão com salsicha e conversavam animadamente em servo-croata na mesinha ao lado…. ahn…. não eram sérvios nem croatas, e tampouco falavam alguma língua eslava: eram portugueses.


Não ria. O fato de um brasileiro com formação universitária não reconhecer à primeira ouvida a matriz castiça da sua língua materna não é engraçado: é trágico. Um brasileiro em Portugal leva mais sustos com o vocabulário do que em Buenos Aires: nosso portunhol é mais afiado que nosso português luso.

Passei agorinha vinte dias corridos em Portugal e voltei apaixonado pela sonoridade do português de verdade. O que até então era apenas um fetiche de contornos humorísticos agora se transformou numa admiração genuína.

Cruzei o país de carro, com o rádio sintonizado numa rádio de notícias – e finalmente parece que consegui perceber (ou p’r’cber) o que há por baixo daquela língua que, do lado de cá do oceano, soa como se fosse escrita em cirílico.

Não, o português de Portugal não é só uma maçaroca de vogais engolidas. É, sim, uma maçaroca de vogais engolidas, mas quando você presta atenção, nota aqui e ali uma vogal inesperadament aberta. É um “vócês”, um “diréção”… minha diversão na estrada era tentar definir um padrão. Descobri que uma consoante muda abre o “é” e alonga o “a” que vêm antes dela. Na próxima viagem descubro qual é a do “ó”.

O mais impressionante é que é muito difícil falar como eles falam – colocar todos aqueles pronomes em todos aqueles lugares, escolher aquelas palavras que eles escolhem. E no entanto tudo soa natural. Aqui não ia dar certo nunca, claro – o português do Brasil perderia completamente a dinâmica se a gente acreditasse de verdade em gramática, sintaxe, regência e concordância –, mas que é lindo de ouvir, ah é.

Pelo certo, deveríamos nos sentir tão humilhados por um português de Portugal bem falado quanto um americano fica quando ouve um inglês padrão BBC. P’rcebe?

***
Artigo replicado do blogue Viaje na Viagem, do jornalista Ricardo Freire. Um dos blogues mais lidos no Brasil e este artigo foi publicado em sua coluna no jornal de O Estado de São Paulo, um dos mais lidos e respeitados do país.

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